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Quinta, 26 Março 2020 15:22

Professor da USP destaca a ciência brasileira e internacional na pesquisa do coronavírus

Paulo Brandão, professor associado da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), é o estudioso brasileiro com maior destaque no número de publicações sobre o coronavírus da plataforma online sobre Especialistas e Pesquisas sobre o Coronavírus do Ibict (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tencologia).

Doutor em Epidemiologia Experimental Aplicada às Zoonoses pela USP (2004), Paulo Brandão também é pesquisador associado ao Coronavirus Research Group, e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq, nível 1B. Autor e orientador de vários textos sobre o coronavírus, o professor estuda o assunto desde o ano 2000.

Em entrevista exclusiva para o site do Ibict, Paulo Brandão explica sobre a importância da ciência brasileira e internacional em relação à COVID-19, destaca positivamente o trabalho que tem sido realizado pela rede de pesquisadores, e reforça o perigo das fake news em um momento tão delicado quanto o que o mundo todo vem enfrentando.

Confira a seguir:

Ibict: Qual o papel e a importância da ciência brasileira e mundial neste momento de combate à COVID-19?

Paulo Brandão: Vou responder com um exemplo maravilhoso, que revela a necessidade de colaboração entre cientistas num momento desses. Existe uma instituição chamada INOVAUSP - Centro de Inovação da USP, uma iniciativa conjunta entre várias instituições. Eles têm instalações e laboratórios prontos para atuar em termos de doenças emergentes e vão começar a fazer diagnósticos de COVID-19 em colaboração ao sistema de saúde. O problema é que eles vêm enfrentando falta de materiais para trabalhar. Foi, então, que eles mandaram um e-mail para todos os pesquisadores da USP pedindo alguns materiais para o andamento do trabalho com a COVID-19. E todo mundo colaborou da melhor maneira possível. Foi uma campanha excelente, e proporcionada graças à rede de cientistas que já colaboravam na área.

Outra iniciativa que mostra essa eficiência da colaboração da ciência em momentos importantes é o Instituto de Ciências Biomédicas da USP, que também está envolvido com diagnóstico e pesquisa do coronavírus. Um limitante é a falta de equipamentos de laboratório, são necessárias certas máquinas, certos equipamentos para fazer diagnósticos. Eles lançaram um pedido de ajuda aos pesquisadores. O número de respostas foi impressionante: todo mundo colocou tudo o que tinha à disposição, e houve colaboração da rede de cientistas e instituições. É um modo de ultrapassar uma barreira importante, que é o tempo de chegada desses materiais ao Brasil. Demoraria muito tempo além do tempo que a população poderia esperar. Então, todo mundo se juntou e mandou os recursos para quem está fazendo pesquisas voltadas à COVID-19. Além disso, muitas outras iniciativas de colaboração entre cientistas têm acontecido no Brasil e no mundo.

Ibict: Os cientistas estão efetivamente colaborando para a prevenção, tratamento e cura da COVID-19?

Paulo Brandão: Sim. Muito rapidamente, todos os laboratórios sérios do mundo têm compartilhado informação sobre a COVID-19. Uma informação muito importante era ter o sequenciamento do genoma da COVID-19, para saber, por exemplo, se ele está tendo ou não mutação. Todo mundo que tem feito alguma coisa a respeito tem inserido as informações nos bancos de dados públicos e os demais conseguem acessar e fazer a análise em cima do que já foi feito. Isso tem acontecido em tempo real, antes mesmo de a publicação ser realizada. Autores estão compartilhando dados de virologia, de epidemiologia, de clínica dos pacientes, por exemplo.

Diante disso, pode-se questionar: como é que se forma essa rede de colaboração? E eu respondo que é estimulando ao longo do tempo com o envio de pesquisadores para treinamento fora do país, buscando o intercâmbio com pesquisadores de outros países e a participação em congressos, questões que são fundamentais para que os cientistas construam suas redes de trabalho. Tanto os pesquisadores de longa carreira quanto estudantes em início de jornada precisam participar de eventos fora do país e criar redes de colaboração. É algo que vai muito além de contarem para a comunidade científica a respeito das suas pesquisas. É exatamente em situações como a que estamos vivendo que os cientistas podem mobilizar a sua rede de contatos.

Ibict: É possível avaliar o impacto futuro para a ciência aberta e a valorização da ciência brasileira e mundial após a pandemia?

Paulo Brandão: Muitas revistas passaram a deixar os artigos relacionados ao coronavírus com acesso aberto. Estávamos vivendo, antes da pandemia, no mundo todo, um movimento anticiência, basicamente. Existia um agudo desprezo pela ciência, pelo conhecimento científico e pelas universidades no Brasil e no mundo todo. Agora, todo o mundo está se voltando para os cientistas, querendo saber sobre a cura e a vacina para a COVID-19. Quem está sendo pressionado agora não é quem negava a ciência, quem está sendo procurado são os cientistas. E todos esperam respostas sobre quanto tempo vai durar e se vai haver vacina e remédios.

Disso tudo podemos ter uma previsão para o futuro, que é a possibilidade de as pessoas perceberem que, em todos os problemas que a humanidade conseguiu de fato sair, em todas as civilizações, desde a antiguidade, até os dias atuais, foi por causa da ciência. É fundamental alertar também que cientista não é só quem está, por exemplo, no laboratório trabalhando com um vírus. Um sociólogo, um historiador, um linguista também são cientistas. Todas as ciências precisam ser valorizadas igualmente.

Ibict: Como alertar a população sobre o perigo na disseminação das fake news nesse cenário tão complexo?

Paulo Brandão: Temos que pensar como é que vamos instrumentar as pessoas a entenderem e detectarem as fake news em planos de longo prazo. Todo mundo tem que ser cientista? Não... mas todo mundo tem que ter algum conhecimento em ciência que só pode vir da educação. Isso é algo que deveria acontecer em longo prazo. Devemos estimular a educação em ciência, o pensamento e o método científico nas crianças. Isso trará instrumentos para a pessoa, de modo autônomo, ter o conhecimento inicial para separar o que é fake e o que é ciência.  

Qual a consequência das fake news nessa pandemia? Um resultado possível é que acabam sendo desviados recursos para ações relacionadas às fake news que acabam por diminuir os recursos para onde realmente seria importante. Uma consequência é o mal-uso de recursos baseados em fake news e as más decisões em todos os níveis baseadas nelas. Um exemplo importante agora que está acontecendo é a falsa notícia sobre utilizar a vacina de coronavírus para cachorro para proteger as pessoas, que tem gerado problemas gravíssimos. Ou as fake news sobre os medicamentos que curam a COVID-19. Com isso, além dos riscos envolvidos para quem toma remédios indevidamente, as pessoas que realmente precisam do medicamento não terão para seu tratamento. E o que é que vai acontecer? Por exemplo, doenças como a malária, que é gravíssima, vão ficar sem tratamento.

Ibict: Considerando sua experiência com o estudo do coronavírus, quais medidas que têm sido tomadas pelo mundo que são eficientes especificamente em relação à propagação da COVID-19?

Paulo Brandão: Esse vírus sobrevive por até três horas em aerossóis. O que são aerossóis? Por exemplo, se eu espirrar ou tossir, isso vai fazer uma espécie de spray e o vírus vai ficar no ar por este período. O que quer dizer que é justificada a quarentena e o isolamento social como medidas eficientes de controle de pessoas atingidas pelo vírus. Outro ponto é que esse vírus pode sobreviver de horas até dias em superfícies, tais como plásticos e metais. Ou seja, as medidas higiênicas que têm sido faladas insistentemente nos últimos dias por vários meios, como a higiene das mãos, dos alimentos e das superfícies são fundamentais. Lavar as mãos, aliás, é uma medida de higiene básica que deveria ser realizada como um hábito cotidiano por todos.

Texto e arte: Núcleo de Comunicação Social do Ibict
Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Última modificação em Quinta, 26 Março 2020 15:38
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